sábado, 26 de maio de 2012

Desigualdade, identidade e gatos presos


E como se já não bastasse, com a complexificação da globalização desde o fim do século XX e neste início de XXI, a desigualdade e a segregação se aprofundam e vêem-se reafirmadas pelas novas exigências do mercado. Enquanto uns avançam neste arriscado jogo da vida que as transformações econômicas nos compelem a participar, os outros, ou seja, os já desprivilegiados, se vêem ainda mais encurralados na sua condição de miséria e marginalidade.

As novas exigências do mercado, de atualização e capacitação, são mais um duro golpe naqueles cujos anseios foram frustrados pelas assimetrias da vida. Os empregos não qualificados são cada vez mais tornados obessoletos pelo desenvolvimento de tecnologias e exigências de aprimoramento. Enquanto antes o trabalho era responsável pela construção de identidades, hoje, só é cidadão quem consome. Consumir no sentido de gastar, despender. Quem não é capaz de gastar e despender - dinheiro, é quem acaba sendo consumido, pelo mercado.

Imersos numa areia movediça, as possibilidades de inserção na estrutura produtiva são cada vez mais escassas. Privação e intimidação são sentimentos predominantes. A sociedade da competição implementada com a globalização e o plano neoliberal, reafirmam essa lógica perversa, legitimando um discurso de que a miséria é fruto da passividade.

Zigmunt Bauman nos traz uma consternante constatação de que estar desempregado já não é o ponto mais baixo a que se pode chegar em uma sociedade regida pelo mercado. O prefixo “des” sugere a idéia de que, por enquanto ou temporariamente, estamos fora de nossa condição ideal, a de empregado. Com o avanço das tecnologias e as novas exigências do mercado promovidas pela globalização, muitos dos desempregados se tornaram gente sem valor ou importância, gente que já não se insere em uma classe, nem nas mais baixas. É gente desclassificada, desnecessária, supérflua, “underclass”.

“Nos períodos de depressão econômica, todos ouvem os políticos dizerem que esperam uma retomada do consumo, o que significa que você, cidadão normal, com uma conta no banco e alguns cartões de crédito, deve entrar nas lojas e comprar mercadorias a crédito, pois a partir daí será possível recomeçar, todos ricos e felizes. Mas quem é da underclass não tem conta em banco, cartões de crédito e nem compra mercadorias que possam gerar lucro(...)” 
(Bauman, Zigmunt. Confiança e medo na cidade; tradução Eliana Aguiar.- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.)


O medo de se tornar supérfluo é que faz com que os indivíduos se agarrem aos seus estilos de vida, construindo um mundo próprio de beleza, conforto e segurança, sem os riscos que a selva urbana pode representar a suas vidas.

Em “Confiança e medo na cidade”, Bauman fala sobre os estrangeiros, claramente sobre aqueles emigrantes com quem a população europeia, no seu caso inglesa, é obrigada a conviver. Mas podemos dilatar o conceito de estrangeiro entendo por não somente os que emigraram, os que são e vem de fora, estranhos ao nosso mundo, alheios a nossa realidade, ameaças ao nosso estilo de vida dos quais devemos nos proteger. Como eles, os pobres, os desclassificados, os “underclass”, podem ser entendidos como estrangeiros. Estrangeiros mesmo que compartilhando uma nacionalidade, mesmo torcendo para um mesmo time, mesmo atravessando as mesmas ruas. Pessoas que estão fora do lugar de onde deveriam estar. Lá, distante de nós, levando sua miséria e sua feiura para longe de nossos olhos e de nossas consciências.

A tendência a se autossegregar é patente nas grandes metrópoles, como não poderia deixar de ser em São Paulo. Cada vez mais as pessoas se confinam num oasis de segurança, conforto e beleza, num mundo ao mesmo tempo dentro e fora da cidade. Estes “enclaves fortificados”, cercados por muros e vigiados por câmeras, mantém seguros os que são de dentro e garantem com que os de fora permaneçam fora. Condomínios fechados, bairros cerrados, espaços herméticos. São lugares que refletem a ambiguidade do espaço e do pertencimento, fisicamente inseridos na cidade mas social e idealmente fora dela.

Infelizmente, sendo tendência - e entendendo tendência como algo que tende a se mover, a se propagar, algo propenso a continuar e se alastrar - os espaços herméticos vêm se reproduzindo pelo país e pelo mundo, de cidades pequenas, médias a grandes metrópoles, num movimento inverso ao que, em detrimento dos feudos, foi-se constituindo as cidades. Essa feudalização dos espaços urbanos reflete a individualização e a dessolidarização a que a globalização e o neoliberalismo nos levou.

Foi amputado de nós o sentimento de todo, de comunidade, de paridade, de pertencimento e dualizado o sentido de indentidade em nós, e “os outros”. Desconfiem dos vizinhos e prendam os gatos ! Viver é um perigo.

2 comentários:

  1. Lido!

    Bom texto!

    Sugeriria você desenvolver a ideia do segundo paragrafo: de que forma você avalia o paradigma do trabalho como produtor de identidades? De que forma isso se associa à cidadania e ao consumo? isso não está claro.

    É importante, quando for desenvolver o trabalho, cercar o conceito de "superfluo" já que está numa acepção não usual.

    Interessante a leitura do underclass como estrangeiro.

    inté!

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  2. Oi, Felipe ! Obrigado pela sua crítica xD

    Reconheço essas deficiências no texto. Como ele foi feito originalmente para um trabalho de ciências sociais sobre o tema segregação socio-espacial, me abstive de esmiuçar certas questões.

    O trabalho, nos tempos modernos, servia como produtor de identidades no sentido de "identidade de classe", como a dos operários, por exemplo. Todos se identificavam sobre esse signo coletivo do trabalhor. Hoje em dia os sindicalismos e as identificações coletivas estão em baixa, não que não existam, mas perderam em quantidade e força, tenho em vista o incentivo do mercado à individualização dos sujeitos.

    A questão da cidadania e do consumo tem tudo haver com o supérfluo, explico: os pobres (para simplificar), são aqueles mais vulneráveis tanto material quanto imaterialmente. Sua condição de vulnerabilidade não os permite exercer sua cidadania de maneira efetiva num Estado "democrático" como o nosso. Assim, somente aqueles que tem minimamente sua condição material satisfeita é que podem, talvez de fato, exercer sua cidadania.

    Ter condição material satisfatória é ser capaz de consumir. Numa sociedade capitalista, aqueles que não são capazes de consumir são descartáveis, supérfluos ao sistema, poderiam e deveriam desaparecer. Aí está o nexo: quem não é capaz de consumir é supérfluo e, sendo supérfluo, não têm condições de exercer, de fato, sua cidadania.

    Espero ter preenchido as lacunas !
    Obrigado xD

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