E como se já não bastasse, com a complexificação da globalização
desde o fim do século XX e neste início de XXI, a desigualdade e a
segregação se aprofundam e vêem-se reafirmadas pelas novas
exigências do mercado. Enquanto uns avançam neste arriscado jogo da
vida que as transformações econômicas nos compelem a participar,
os outros, ou seja, os já desprivilegiados, se vêem ainda mais
encurralados na sua condição de miséria e marginalidade.
As novas exigências do mercado, de atualização e capacitação,
são mais um duro golpe naqueles cujos anseios foram frustrados pelas
assimetrias da vida. Os empregos não qualificados são cada vez mais
tornados obessoletos pelo desenvolvimento de tecnologias e exigências
de aprimoramento. Enquanto antes o trabalho era responsável pela
construção de identidades, hoje, só é cidadão quem consome.
Consumir no sentido de gastar, despender. Quem não é
capaz de gastar e despender - dinheiro, é quem acaba sendo consumido,
pelo mercado.
Imersos numa areia movediça, as possibilidades de inserção na
estrutura produtiva são cada vez mais escassas. Privação e
intimidação são sentimentos predominantes. A sociedade da
competição implementada com a globalização e o plano neoliberal,
reafirmam essa lógica perversa, legitimando um discurso de que a
miséria é fruto da passividade.
Zigmunt Bauman nos traz uma consternante constatação de que estar
desempregado já não é o ponto mais baixo a que se pode chegar em
uma sociedade regida pelo mercado. O prefixo “des” sugere a idéia
de que, por enquanto ou temporariamente, estamos fora de nossa
condição ideal, a de empregado. Com o avanço das tecnologias e as
novas exigências do mercado promovidas pela globalização, muitos
dos desempregados se tornaram gente sem valor ou importância, gente
que já não se insere em uma classe, nem nas mais baixas. É gente
desclassificada, desnecessária, supérflua, “underclass”.
“Nos períodos de depressão econômica, todos ouvem os políticos
dizerem que esperam uma retomada do consumo, o que significa que
você, cidadão normal, com uma conta no banco e alguns cartões de
crédito, deve entrar nas lojas e comprar mercadorias a crédito,
pois a partir daí será possível recomeçar, todos ricos e felizes.
Mas quem é da underclass não tem conta em banco, cartões de
crédito e nem compra mercadorias que possam gerar lucro(...)”
(Bauman, Zigmunt. Confiança e medo na cidade; tradução Eliana Aguiar.- Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2009.)
O medo de se tornar supérfluo é que faz com que os indivíduos se
agarrem aos seus estilos de vida, construindo um mundo próprio de
beleza, conforto e segurança, sem os riscos que a selva urbana pode
representar a suas vidas.
Em “Confiança e medo na cidade”, Bauman fala sobre os
estrangeiros, claramente sobre aqueles emigrantes com quem a
população europeia, no seu caso inglesa, é obrigada a conviver.
Mas podemos dilatar o conceito de estrangeiro entendo por não
somente os que emigraram, os que são e vem de fora, estranhos ao
nosso mundo, alheios a nossa realidade, ameaças ao nosso estilo de
vida dos quais devemos nos proteger. Como eles, os pobres, os
desclassificados, os “underclass”, podem ser entendidos como
estrangeiros. Estrangeiros mesmo que compartilhando uma
nacionalidade, mesmo torcendo para um mesmo time, mesmo atravessando
as mesmas ruas. Pessoas que estão fora do lugar de onde deveriam
estar. Lá, distante de nós, levando sua miséria e sua feiura para
longe de nossos olhos e de nossas consciências.
A tendência a se autossegregar é patente nas grandes metrópoles,
como não poderia deixar de ser em São Paulo. Cada vez mais as
pessoas se confinam num oasis de segurança, conforto e beleza, num
mundo ao mesmo tempo dentro e fora da cidade. Estes “enclaves
fortificados”, cercados por muros e vigiados por câmeras, mantém
seguros os que são de dentro e garantem com que os de fora
permaneçam fora. Condomínios fechados, bairros cerrados, espaços
herméticos. São lugares que refletem a ambiguidade do espaço e do
pertencimento, fisicamente inseridos na cidade mas social e
idealmente fora dela.
Infelizmente, sendo tendência - e entendendo tendência como algo
que tende a se mover, a se propagar, algo propenso a continuar e se
alastrar - os espaços herméticos vêm se reproduzindo pelo país e
pelo mundo, de cidades pequenas, médias a grandes metrópoles, num
movimento inverso ao que, em detrimento dos feudos, foi-se
constituindo as cidades. Essa feudalização dos espaços urbanos
reflete a individualização e a dessolidarização a que a
globalização e o neoliberalismo nos levou.
Foi amputado de nós o sentimento de todo, de comunidade, de
paridade, de pertencimento e dualizado o sentido de indentidade em
nós, e “os outros”. Desconfiem dos vizinhos e prendam os gatos ! Viver é um perigo.


